O que me motivou a escrever nesse exato momento foi uma morte. Uma só. A morte de alguém muito querido por pessoas que eu quero bem... lembrei na verdade, que logo logo seremos nós que estaremos passando por isso, pela primeira vez. Aliás, foi isso que me deu a idéia de fazer um blog inicialmente... todo aquele luto de quando achamos que ele não ia conseguir sobreviver a cirurgia, toda aquela situação. O milagre que é a pessoa estar a beira da morte e voltar. Eu disse pra minha querida amiga que ainda não sei como ela se sente, embora não demore. Mas sei como é ser muito querida por alguém, talvez até fazer diferença; alguém que sempre que chega pega a minha mão e me abraça, e que sempre deixa claro o quanto eu sou importante, eu e minhas coisas todas... alguém que esteve ao meu lado e por mais "casca grossa" que seja, era sensível o suficiente para saber como eu estava e me levava para dar "altas bandas" nos meus momentos adolescentes mais difíceis e solitários...
Mas existe uma parte ruim também... e essa é a minha versão: ele era muito ruim com a própria família, há muito tempo... tinha outras mulheres, outra família, chegou a ficar muito tempo longe de casa... era alcoólatra, violento... anos se passaram e ele foi melhorando... freqüentou os AA, parou de beber, voltou pra casa... eu não sei bem a ordem... quando eu era criança, ele não fazia muita questão de contato... ele era muito amargo ainda... na verdade, ele não gosta muito de crianças eu acho... embora ele fique fascinado quando vê a Helena (e quem não fica!?). Ele fumava muito, reclamavam muito do cheiro de cigarro e das queixas (que são a marca registrada dele)... de tudo isso que eu disse, só as queixas restaram... quando ele descobriu que tinha câncer, ele parou de fumar... E agora eu digo pra vocês o que mais me dói: vocês acham que eles melhoraram com ele, acharam que ele era uma pessoa melhor depois de tudo isso?
Uma pessoa que nós deveríamos nos orgulhar por ser uma referência nacional no trabalho que desenvolvia e hoje em dia ainda desenvolve entre uma sessão de quimioterapia e outra... eu não sei vocês, mas eu tenho muito orgulho dele. Eu já ouvi ele contando como foi a recuperação do alcoolismo e vou dizer pra vocês o que ele disse: "quando ouvia o depoimento das outras pessoas, me dava conta que estava caminhando em direção a um abismo, mas sem saber o quão perto da borda eu estava". Sim, apesar de tudo, eu tenho muito orgulho dele.
Antes dele ir pra cirurgia, eu fui falar com ele, era praticamente um cadáver na cama esperando a hora... até a voz falhava. Eu precisava dizer pra ele algo que fizesse ele saber o quanto era importante pra mim. A única coisa que eu consegui dizer foi: "volta".
Ele voltou... naquele tempo ele ainda tinha muito fôlego pra continuar, diferente de hoje em dia, quase 2 anos depois...
Mas vou dizer pra vocês... nada na vida é por acaso, não é? Ele falou com muita emoção que as sessões de quimio em que meu pai (e filho mais velho dele) ficava com ele, eram muito boas e eles puderam conversar como nunca antes, durante toda vida deles.
Hoje em dia já amadurecemos essa convivência tão incerta. No início, quando ele pegava na minha mão ficava segurando por tempo, como ele costuma fazer, eu sentia cada segundo passando e agradecia por ter novamente aquela oportunidade. Eu valorizo muito tudo que eu passo com ele, e ligo, por mais que seja muito dolorido ouvir ele se queixando de como passa mal com a quimio nova e que o pulmão agora anda ruim... mas ele precisa de atenção e de compreensão e não de cobranças e eternas insatisfações de alguns filhos que infelizmente não vão se dar conta de tudo isso antes que seja tarde...
Ele tem muitos defeitos, mas quem não tem? Queria ao menos que ele fosse na minha formatura... mas está cada vez mais improvável...
Como diz essa minha amiga que perdeu a vó: "uns vem e outros vão..." Ah, sobre isso queria fazer uma "obs". Essa vó da minha amiga era bem mais dependente dos filhos do que meu vô, e eu nunca ouvi ninguém na casa dela reclamar, aliás, parecia um prazer quando chegava o dia deles ficarem com ela, com muito carinho, paciência e atenção. Já meu vô, só depende dos filhos para ir e voltar do hospital durante as quimios e algumas coisas de casa, como fazer comida, por exemplo. E vou dizer pra vocês... pra quem vê de fora, parece uma tortura.
Bom, fora essas tristezas, as coisas vão bem. Estamos aguardando ansiosamente o nascimento da Beatriz, minha sobrinha e afilhada, que primeiro estava com pressa depois deu o contra... hehehe
Queria dizer com muita alegria também que meu humor normal - ou anormal hahahaha - está voltando aos poucos!!! Percebi ontem depois que virei meia caixa de leite dentro da geladeira e comecei a rir... entre outras coisas!
Ando agora em buscas espirituais de conceitos e respostas... andei mudando de crenças e está me fazendo muito bem acreditar em algumas coisas diferentes, em breve conto detalhes!!
As coisas vão ficar bem!!!
Beijo e abraço.